O Fashion Revolution é um movimento global que nos desafia a olhar para as etiquetas e a perguntar: quem fez a nossa roupa?

várias pessoas mostram as etiquetas da sua roupa

O Fashion Revolution é um movimento global que nos desafia a olhar para as etiquetas e a perguntar: quem fez a nossa roupa?
O UniPlanet falou com Salomé Areias, coordenadora do Fashion Revolution em Portugal, para ficar a conhecer melhor esta iniciativa.


UniPlanet (UP): Como nasceu o movimento Fashion Revolution?

O movimento Fashion Revolution começou no Reino Unido, pelas mãos da Carry Somers e Orsola de Castro que, tal como milhares de pessoas em todo o mundo, assistiram a 24 de abril de 2013 ao ruir do Rana Plaza em Dhaka, Bangladesh, que provocou mais de mil mortes e 2500 feridos - um evento trágico sem precedentes causado pela grande pressão do ocidente em produzir muita roupa, a baixo preço, sob fracas condições, tão rápido quanto possível. Assim surgiu a necessidade de criar elos fortes de ligação na indústria da moda, entre os seus consumidores, criadores, operários e organizações comerciais e políticas em prol da transparência, sustentabilidade e justiça no sector, a fim de evitar que um evento desta natureza jamais voltaria a acontecer.



UP: Qual é a sua opinião sobre a indústria da moda hoje em dia? Porque é importante sabermos quem fez a nossa roupa?

A moda é amplamente subestimada e entendida como algo fútil, supérfluo, mas extasiante. Em grande parte, é com base neste estigma (alimentado pelos media e pela necessidade de acelerar as tendências de moda e aumentar as vendas) que surge uma falta de respeito pela roupa que usamos, cada vez mais descartável e de baixa qualidade. Na verdade, o adorno responde a necessidades básicas humanas, tal como a auto-estima, proteção, sentido de pertença – tudo fatores vitais para a construção social.

Hoje em dia a pressão para gerar lucro infinitamente, num contexto em que os recursos materiais são finitos e a mão-de-obra tem limites, obriga as marcas de moda a explorar ininterruptamente ou a morrer, num mercado cada vez mais competitivo. Por outro lado, em poucas décadas neste formato económico, o consumidor perdeu a sua liberdade sem se dar conta, assistindo à extinção do artesanato e à supressão da oferta de produtos sustentáveis, inebriados pela oferta barata.

Pouco lhe resta senão corroborar com a cultura do consumo rápido, que lhe ensinou a ter muito pagando muito pouco, relativizando o estrago ambiental, o sofrimento de quem faz a roupa, e a estagnação das ideias para novos produtos, que não se multiplicam neste formato estéril.‘Longe da vista, longe do coração’: só quando conhecermos a história das nossas roupas e só quando reflectirmos sobre o seu destino, é que vamos reconhecer o nosso peso na equação quando as compramos, quando as desenhamos, quando as criamos, quando as distribuímos, quando as publicitamos.
O movimento #WhoMadeMyClothes é a arma que o Fashion Revolution usa para lutar pela transparência. Acreditamos que as pessoas que fazem as nossas roupas têm de sair do anonimato, as técnicas devem ser valorizadas, a atividade económica estimulada, os ecossistemas e tempo de produção respeitados.




UP: Vai decorrer, de 24 a 30 de abril, a Fashion Revolution Week. Quer falar-nos um pouco sobre o programa?

Nesta edição, para além de repetirmos alguns eventos de sucesso como o Swap Market, conferência sobre “Como consumir sustentável e justo em Portugal”, e workshops vários no fim de semana de 29 e 30 de abril, juntámo-nos à Montra e criámos o Mercado Justo e Sustentável, que vai ter lugar no Mercado de Arroios nos mesmos dias. Devido a várias sinergias que surgiram com escolas em Lisboa, foi possível criar também um programa riquíssimo de palestras e workshops ao longo da semana de 24 a 28 de abril a acontecer na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, E. S. José Gomes Ferreira, E. S. Leal da Câmara e E. S. António Arroio. Juntem-se também a nós no dia 25 de abril, na Gulbenkian, no Dialogue Café para falar sobre moda sustentável e sobre como devemos repensar o sistema de moda.





UP: O que podemos fazer para que as nossas compras de roupa sejam mais éticas e sustentáveis?

Perante a necessidade em adquirir roupa, se o consumidor já descartou a hipótese de reutilizar ou reformar a roupa que já tem ou de trocar de roupa com familiares e amigos, a decisão de compra pode ainda passar por produtos em segunda mão. A compra é uma mensagem poderosíssima que o consumidor envia às marcas, um sinal verde para produzirem mais e mais, dentro dos valores que as próprias marcam advogam.

Por isso é tão importante questionar esses valores. A compra em segunda mão tem um impacto importante na medida em que, por um lado estamos a prolongar a vida de algo que já foi produzido, e por outro estamos a optar por um produto que geralmente tem maior durabilidade (regra geral, quanto mais antiga a roupa é, melhor a qualidade de confecção e material, devido à evolução da obsolescência planeada que se verificou ao longo do último século). No caso da compra de um novo produto, a estimulação da economia local é profícua para toda a comunidade, incluindo designers, makers, produtores da matéria-prima e consumidores.

O consumidor pode questionar sobre a origem dos produtos e perceber o impacto que está a criar no ambiente e no desenvolvimento económico das comunidades envolvidas e perceber se está de acordo com esse sistema. Existem marcas de moda sustentável um pouco por todo o mundo, e é possível comprar estes produtos online. Este tipo de comportamento de consumo requer mais tempo e um olhar mais analítico sobre o mercado, mas no fim compensa pela qualidade, pelo respeito à arte e pelo designer, pela durabilidade, e pela ligação emocional.




UP: Como podemos saber se um produto se enquadra nestas duas categorias?

Não é possível saber com toda a certeza enquanto não testemunharmos todo o processo, nem haverá um produto totalmente sustentável. É importante em primeiro lugar aceitar esta verdade, para que possamos começar a caminhada com um primeiro passo. É importante tentar e começar por algum lado. No momento da compra, o vendedor é a primeira pessoa que nos pode ajudar, e só o facto de questionarmos sobre a origem do produto a cada compra, já é um passo impactante.

Se puder conhecer o produtor ou artesão e saber que o seu trabalho é justamente remunerado e se lhe oferece todas as condições para evoluir e sustentar a sua comunidade, essa compra abrirá portas para o desenvolvimento económico, social e ambiental. Uma rápida pesquisa no site oficial das marcas, ou em fóruns com reviews pode esclarecer algumas dúvidas em segundos.

É importante que a marca respeite por um lado a sustentabilidade da extracção da matéria-prima, protegendo os ecossistemas, e por outro a ética no local de trabalho que permitirá aos artesãos/designers desenvolverem-se pessoal e profissionalmente, contribuindo para a inovação e desenvolvimento económico local. Toda a gente pode seguir o movimento online do Fashion Revolution e perguntar às marcas das suas roupas #WhoMadeMyClothes. As respostas que as marcas dão a estes pedidos não são tão raras quanto as pessoas pensam. Experimentem!




UP: O que esperam que as pessoas aprendam durante a Fashion Revolution Week?

Esperamos que as pessoas tentem entender o seu próprio comportamento de consumo, identifiquem as dificuldades em obter o que procuram, ganhem uma maior perspectiva sobre a vida do produto e sobre a energia que é investida para que o produto chegue às suas mãos, e sobretudo que pensem em soluções que respeitem todos os processos da sua produção. Nos eventos do Fashion Revolution Week em Portugal, os participantes vão poder aprender a fazer/reformar a sua própria roupa de forma criativa e a trocar roupa com outras pessoas (e assim acrescentar duas alternativa que pode preceder a decisão de compra), conhecer artesãos e designers nacionais e promover a economia local no Mercado Justo e Sustentável, e estabelecer novos contactos que podem ser profícuos para a produção sustentável, entre designers, consumidores e makers. Queremos que, acima de tudo, todos sintamos que temos uma quota parte de responsabilidade, e que todos temos uma voz para sugerir novas ideias.


UP: Onde podemos encontrar mais informação sobre o Fashion Revolution Portugal?

Podem saber tudo sobre a semana do Fashion Revolution Portugal na nossa página do Facebook e também seguir-nos no Instagram e Twitter.



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