Armadilhas fotográficas da Universidade de Utah captaram uma cena insólita: um texugo-americano a enterrar a carcaça de uma vaca sozinho.



As armadilhas fotográficas que os biólogos da Universidade de Utah instalaram, em janeiro do ano passado, captaram um momento insólito nunca antes documentado: um texugo-americano a enterrar a carcaça de um bezerro – um animal muito maior do que ele – sozinho.

Quando os biólogos colocaram as carcaças, juntamente com as armadilhas fotográficas, nas Grassy Mountains, o seu objetivo não era estudar texugos. “Esperava que víssemos bastantes abutres e talvez algumas águias e coiotes”, conta Evan Buechley, coautor do estudo.

Mas quando visitou o local onde deveria estar uma das carcaças, o investigador teve uma surpresa: o corpo do animal tinha desaparecido. “A terra tinha sido remexida, mas não estava à espera de que [o bezerro] tivesse sido enterrado. Estava bastante aborrecido porque tinha sido uma carga de trabalhos levar estas carcaças para o deserto”, explica.

Só depois das imagens da armadilha fotográfica terem sido examinadas é que se desvendou o mistério. “O texugo roubou as luzes da ribalta”, comenta.



Nas imagens, vemos um texugo a escavar em redor do corpo do bezerro, que se afunda quando os túneis escavados debaixo dele colapsam. Posteriormente, a carcaça é coberta com terra, desaparecendo de vista. Este processo demorou cinco dias e, apesar de o texugo-americano ser um animal noturno, podemos vê-lo a escavar de dia e de noite.

Acabado este trabalho, o animal parece “recostar-se” sobre o monte, desfrutando de um descanso bem merecido, enquanto olha diretamente para a câmara. "Não querendo antropomorfizar em demasia, mas ele parece realmente um texugo felicíssimo”, disse Tara Christensen, que criou o vídeo em time-lapse com as imagens das armadilhas fotográficas.

Quando Evan Buechley foi verificar as restantes carcaças, descobriu outra que também tinha sido quase totalmente enterrada por um texugo diferente. “A segunda ocorrência foi muita informativa porque significou que não se tinha tratado de um comportamento insólito único.”

“[Os texugos] são uma espécie enigmática”, conta outro dos coautores do trabalho, Ethan Frehner. Como são animais noturnos, que passam muito tempo debaixo da terra, “há muitos espaços em branco que precisam de ser preenchidos” relativamente ao seu comportamento, disse o investigador.

De acordo com os biólogos, os texugos escondem a sua comida de forma a isolá-la de outros animais e a mantê-la num ambiente onde durará mais tempo. “É como colocá-la no frigorífico”, explica Buechley. Já tinham sido observados texugos a enterrar coelhos e roedores, mas nunca um animal maior do que eles próprios. “O solo mantém a carcaça fresca, o que inibe a sua decomposição; deste modo, [os texugos] podem alimentar-se dela e monopolizar por completo uma fonte de alimento muito importante.”



O investigador teme que isto possa ter um grande impacto no ecossistema austero da Grande Bacia. “Não existem muitos recursos lá”, conta. “Um grande ungulado morto pode fornecer imensos recursos. Até agora, nas carcaças que deixámos, observámos urubus-de-cabeça-vermelha, águias-reais, muitos corvos, linces-pardos, raposas-anãs e coiotes, por isso há muitos animais que poderiam estar a usar este recurso e o texugo monopolizou-o por completo.”

Por outro lado, os investigadores apontam um possível serviço ecológico prestado pelos texugos: podem enterrar animais em estado de putrefação antes que alguma doença incubada na carcaça infete outros animais.

Depois de ter enterrado o bezerro, o texugo-americano construiu uma toca ao seu lado. “Durante cerca de duas semanas permaneceu debaixo da terra”, disse Buechley. “Já que lá em baixo tinha esta fantástica fonte de alimento.”
Ambos os texugos construíram tocas junto às carcaças enterradas, onde dormiram, comeram e passaram até 11 dias sem vir à superfície, abandonando os locais 41 e 52 dias após a descoberta inicial.

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