Neste vídeo, o escritor e ativista Tristam Stuart defende que o desperdício alimentar é um escândalo global.



Há um escândalo mundial por trás da viagem da comida desde o campo até ao nosso prato. No mundo, mais de 800 milhões de pessoas passam fome; contudo, desperdiça-se pelo menos um terço de toda a comida produzida.
Mesmo nos países mais ricos, milhões de pessoas sofrem de pobreza alimentar. Um em cada quatro norte-americanos afirma ter dificuldade em comprar comida. É a carência num mar de abundância.

Mais de 30% da comida dos EUA, no valor de 150 mil milhões de euros, é desperdiçada pelos supermercados e pelos seus clientes. Isso é mais do que suficiente para alimentar todas as pessoas subnutridas do mundo. O cultivo de alimentos requer terreno, água, combustíveis fósseis e solo e a sua produção é, por si só, o maior impacto que nós, os seres humanos, tivemos na natureza.

Na base do nosso sistema alimentar estão as nossas explorações agrícolas. A tragédia é que alguns agricultores não conseguem vender metade do que produzem, devido a padrões de beleza estipulados pelos supermercados. É uma sessão de casting brutal, onde feijões-verdes tortos ou cenouras imperfeitas são descartados. Com olhos vendados, não vemos a beleza nestes legumes feios.

E os supermercados cancelam ou alteram as suas encomendas regularmente e à última hora, o que significa que os alimentos já produzidos pelos seus fornecedores são descartados. Os agricultores suportam o custo deste desperdício, embora a culpa não seja deles.

Os supermercados criam uma imagem de superabundância deliberada. Comprar em excesso é uma reação humana à fartura. Esta é uma estratégia de marketing que faz com que compremos mais do que necessitamos e que se criem montanhas de alimentos desperdiçados.



Entretanto, os prazos de validade excessivamente cautelosos confundem e assustam os consumidores, que acabam por deitar fora o que ainda está apto para consumo.
Cafés, buffets e restaurantes são todos cúmplices na sedução do excesso, produzindo em excesso para manter um menu completo a qualquer hora. E servem aos clientes doses cada vez maiores, que são pagas mas que, frequentemente, são deixadas no prato.

De 1982 a 2002, a fatia de pizza comum ganhou mais 70% de calorias e a típica bolacha com pepitas de chocolate quadruplicou. Aumentamos desmesuradamente os nossos problemas juntamente com os alimentos, já que estas calorias extra consomem água, terra e combustíveis fósseis escassos.

As doações de comida efetuadas por restaurantes e comerciantes são formas comprovadas de se redistribuir alguns destes excedentes nutritivos enquanto ainda estão aptos para consumo. Mas muitas empresas ainda continuam a achar que é mais barato e fácil encher as suas lixeiras com eles.
Se incluirmos a comida que os seres humanos poderiam comer, mas que, em vez disso, é usada para engordar o gado para mais lacticínios e carne, descobrimos que um país como os EUA tem acesso indireto a quatro vezes a quantidade de calorias de que necessita.

Em vez de deitarem fora a comida, os supermercados, os fabricantes e os fornecedores devem ser pressionados a direcioná-la para instituições de caridade que oferecem alimentos às pessoas com fome. Os governos deveriam intervir quando os retalhistas poderosos cancelam encomendas e “despejam” o seu desperdício alimentar nos agricultores, recusando-se a pagar a fatura. E, quando a comida já não está apta para consumo humano, pode, pelo menos, ser dada ao gado, particularmente a porcos e galinhas. As normas que o impedem precisam de ser alteradas.

Nós devíamos comprar aquilo de que precisamos e comer o que compramos. E exigir às empresas poderosas, que controlam grande parte do sistema alimentar, que quantifiquem e tomem responsabilidade pelo desperdício que geram. Os governos deviam usar os grandes subsídios que oferecem para incentivar os agricultores a cuidar das suas terras de uma forma que proteja o planeta, em vez de produzirem mais comida em série para encher as nossas lixeiras e encher demais as nossas barrigas. E precisamos todos de reconhecer que a comida é demasiado preciosa para ser desperdiçada.

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