O plástico recolhido numa praia foi transformado em esculturas por alunos de várias escolas e podem ser agora vistas numa exposição.



Depois de aprenderem, na escola, sobre o problema do plástico nos oceanos, alunos de várias escolas do Lumiar, em Lisboa, puseram mãos à obra e limparam a praia de Algés. Transformaram depois esse lixo em esculturas, que podem agora ser vistas na exposição “Salva os Oceanos”, até ao dia 2 de abril.

O UniPlanet falou com Ana Salcedo, coordenadora da primeira parte deste projecto educativo do LisbonWeek que culminou na exposição “Salva os Oceanos”.


UniPlanet (UP): Em primeiro lugar, gostaríamos de lhe dar os parabéns, assim como ao LisbonWeek, por esta iniciativa que pretende sensibilizar para o problema do plástico nos oceanos. Como surgiu a ideia para a realização da Exposição "Salva os Oceanos"?

Esta edição do LisbonWeek (que decorre de 28 de março a 2 de abril) apostou na (re)descoberta do bairro do Lumiar, o bairro maior e mais antigo de Lisboa (celebra este ano 750 anos), que é também um dos que alberga mais escolas públicas e privadas da cidade — razão pela qual a Xana Nunes pensou desde logo em envolver as crianças num projeto educativo. A cultura e a arte permeiam o conceito do LW, portanto a ideia já nasceu com a vontade de culminar num projeto artístico. E o facto de as instalações da ValorSul estarem nesse bairro, apontou a possibilidade de abordar o tema dos resíduos. Foi quando a Xana me ligou a apresentar a ideia e a convidar-me para colaborar.

Nessa altura estava a investir em mim, no programa de Liderança Criativa da THNK, que apoia o desenvolvimento de líderes que apostem no desenvolvimento triple-bottom-line, de forma a promover negócios mais conscientes e sustentáveis. Foi-nos apresentado um desafio real pela CMLisboa — como reduzir significativamente o lixo da cidade? O timing não podia ter sido mais acertado, e deu-nos a oportunidade de estabelecer uma série de sinergias que permitissem abordar o tema de forma progressiva e construtiva, aproveitando o tempo do ano letivo, de setembro à semana do LisbonWeek.

Resolvemos focar no plástico, já que representa 80% do lixo que acaba nos oceanos (70% do planeta), sendo que 80% vem de terra. Nos últimos 10 anos produziu-se mais plástico do que nos últimos 100, e o plástico nunca se decompõe apenas se fragmenta, funcionando como um íman para toxinas. O uso tão fácil e tão descartável do plástico que se instituiu na nossa sociedade constitui um problema dramático.
E enquanto a questão da reciclagem já é abordada nas escolas, a diminuição do consumo do plástico —tão fundamental— e a sua transformação criativa, nem tanto.
Entramos por aí. E a EMEL e o Banco Santander-Totta contribuíram para fazer acontecer.





UP: O plástico da exposição foi recolhido de uma praia por alunos de várias escolas. Pode contar-nos como decorreram as várias etapas do projeto, que culminou na exposição?

De setembro a dezembro, em parceria com o Oceanário de Lisboa — que desenvolveu um projeto de intervenção nas escolas para abordar o tema do plástico (estrearam no LisbonWeek) — fomos a 13 escolas do Lumiar, a todas as turmas de 1º e 2º ciclo, ensinar sobre o problema do plástico. Foram mais de 2000 alunos dos 6 aos 12 anos envolvidos nesta fase, e a intervenção era super hands-on e divertida, porém com conteúdo profundamente importantes, abordando o tipo de lixo marinho, de onde vem, a dinâmica dos oceanos (que cobrem mais de 70% do planeta e acumulam ilhas de lixo), o contexto do plástico (bom e mau), os tipos de plástico, os diferentes tipos de ameaças que representam (ingestão, aprisionamento, toxicidade), o problema dos microplásticos e como detectá-los em produtos de higiene (polyethylene nos rótulos), o problema das cotonetes (lixo que mais aparece nas praias portuguesas, depois das beatas, porque imensa gente ainda deita na sanita) e, acima de tudo, dicas de como contribuir para os 5 R’s – recusar (palhinhas, balões, sacos, descartáveis em geral), reduzir (levar lanche para a escola em recipiente reutilizável e não embrulhar sandes em película aderente ou alumínio, por ex), reutilizar (encher garrafa de água), reciclar (sempre) e reeducar (contar tudo o que aprenderam aos amigos e família). Senti que foi mesmo importante, que os miúdos adoraram e que todas as crianças deveriam ter acesso a este conhecimento.





No início do ano convidamos as famílias dos meninos das escolas a virem limpar uma praia. A ValorSul contribuiu com sacos que foram distribuídos a todas as crianças. Vieram mais de 300 famílias à Praia de Algés, foi maravilhoso! Este é um dos meus projetos, o PlasticSunDays, que promove limpezas de praia e outras ações de consciência em relação ao plástico. Acredito muito no poder de uma limpeza de praia, afina o olhar para o tipo de lixo que mais produzimos e torna-nos mais atentos e conscientes. O ato de limpar imprime memória e funciona como lembrete na hora de consumir, é um bom incentivo a fazer melhor todos os dias. Além do bom que é unir pessoas à volta de uma boa causa, ao ar livre, com linha do horizonte.

Aqui entraram também os SkeletonSea, um grupo de artistas-surfistas que fazem um trabalho artístico maravilhoso com materiais recolhidos nas praias. Eles orientaram os professores de artes das escolas. Cada escola recebeu uma letra para decorar com o material recolhido na praia (quase tudo plástico, claro), dentro do tema “Salva Os Oceanos” frase que compunha as letras todas juntas. Foram mais 3 meses a reforçar o tema, a circularidade dos materiais, dentro da lógica de que só há lixo se não houver imaginação. O resultado final está agora no Parque da Quinta das Conchas, até 2 de abril, e depois volta para as escolas. Junto das letras estão também 2 peças do SkeletonSea, um polvo e um peixe espetaculares! Vale a pena ver!





UP: Quais foram as principais dificuldades que sentiu na realização deste projeto?

O pré-trabalho de preparação. Foi difícil que as escolas conseguissem encaixar uma intervenção de 2h seguidas em cada turma. A estrutura curricular é tão comprimida e intensa, que mal deixa espaço para os miúdos respirarem, ou para os professores poderem encaixar projetos de autoria, de sugestão, o que seja. Mas conseguimos, com muito boa vontade de todas as partes, com especial destaque para o trabalho da Ilda Magro da CML, e mestria de tétris na conjugação de horários!





UP: Contaram com o apoio dos Skeleton Sea. Como correu essa experiência?

Lindamente! Como já referi, eles coordenaram a 2ª parte do projeto, desde a limpeza da praia, junto connosco PlasticSunDays, à criação das letras, à inspiração artística, ao acompanhamento junto com as escolas. Admiro e respeito muito o trabalho deles, de duplo impacto. Deixam as praias melhor do que as encontram, e dedicam-se de coração ao árduo trabalho de elevar consciências. E a arte tem um poder muito transformador, além de promover a tão necessária circularidade dos materiais.

Acreditamos muito na importância deste tipo de trabalho, essencialmente juntos dos mais novos, que constituem 100% do nosso futuro. Não podemos vacilar em criar uma geração capaz de lidar criativamente com a bagagem de problemas ambientais e sociais que estão a herdar. E só com muito esforço e muita colaboração, muita proatividade consciente, conseguiremos inverter esta tendência destrutiva. E não é para deixar para amanhã, tem de começar ontem!


UP: Onde e até quando podemos visitar a Exposição Salva os Oceanos?

No Jardim do Parque das Conchas, no Lumiar, até dia 2 de abril. Corram! E aproveitem também o resto da programação do LisbonWeek para explorar os tesouros do bairro, resultado de um trabalho incrível de uma equipe muito dedicada do LisbonWeek. Estão todos de parabéns!


Visitem:

Exposição “Salva os Oceanos”
Jardim do Parque das Conchas, no Lumiar, Lisboa
Até dia 2 de abril


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