Para a vida selvagem não existem fronteiras.



O muro que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quer construir ao longo da fronteira com o México tem sido alvo de severas críticas por parte de organizações e autoridades, que o acusam de ser um “ato hostil” e uma afronta aos direitos humanos. Há, no entanto, um aspeto que não é muitas vezes considerado: o impacto que teria na vida selvagem.

Segundo um relatório provisório do Serviço de Vida Selvagem e Pesca dos EUA, um muro a cobrir toda a fronteira de quase 3200 km, ocupando uma largura total de 300 metros (estradas de acesso, estruturas de apoio, etc.), poderia afetar 111 espécies ameaçadas, 108 aves migratórias, refúgios de vida selvagem e um número desconhecido de zonas húmidas protegidas.

As barreiras construídas pelo homem impedem o movimento natural da vida selvagem, vedando o acesso das populações de animais a fontes de alimento e importantes rotas migratórias, para além de separarem grupos da mesma espécie. Muitas chegam a matar os animais que ficam presos nelas. Nos frágeis ecossistemas do deserto na fronteira entre os EUA e o México, o muro poderia ter consequências irreparáveis para espécies e subespécies incrivelmente raras, como o jaguar do deserto de Sonora e o lobo-mexicano.


Jaguar

A fronteira entre os dois países atravessa dois ecossistemas muito importantes: o de Sky Islands e o do Vale do Rio Grande – um dos locais mais ricos em biodiversidade da América do Norte. Linces, ocelotes, veados, uma variedade de reptéis e anfíbios e cerca de 500 espécies de aves migratórias dependem da livre circulação através desta região.

Os danos que o muro de Trump provocaria na vida selvagem podem ser adivinhados, de certa forma, observando os causados pelas barreiras já existentes entre os dois países. Em 2009, já existiam 1000 km de barreiras de arame farpado e estruturas de aço de 5 metros na fronteira. Em 2011, 16 espécies tinham perdido até 75% da sua área de distribuição natural.

Animais raros como os ocelotes no Texas (só existem cerca de 50 nos EUA) foram separados das populações mais diversificadas do México, levando à perda de diversidade genética. Também foram observados bisontes a trepar pelas barreiras de arame farpado, tentando aceder a alimento ou água.

“O que é interessante na infraestrutura que já existe na fronteira é que ela afeta mesmo todas as espécies. Tudo, desde um urso que não tem hipótese de a atravessar até aos pequenos sapos e rãs. É intransponível até para as pequenas espécies selvagens”, disse Louise Misztal, bióloga e diretora executiva da organização Sky Island Alliance, ao Motherboard.

O muro colocaria em risco o movimento dos mamíferos que percorrem grandes distâncias, “como os pumas, ursos, jaguares, ocelotes [que] precisam de se movimentar entre as diferentes cadeias montanhosas para acederem a fontes de alimento e água” e impediria os jaguares de migrarem para os EUA e repovoarem a área. Além disso, fragmentaria a pequena população de aproximadamente 100 lobos-mexicanos – a subespécie de lobo selvagem mais ameaçada do mundo.

Nem mesmo os animais voadores estariam a salvo. Se a barreira for iluminada, poderá afetar a migração das aves e dos insetos, que se guiam pelas estrelas.
“Para além dos impactos bem óbvios e visíveis para a vida selvagem, poderá haver impactos a longo prazo que não seremos capazes de ver imediatamente”, avisa a bióloga.



Foto: Mario Romulic e Stojcic Studio / AP

Lobo-mexicano


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