A Austrália não tinha gatos, mas agora eles ocupam 99,8% do continente, o que tem graves consequências para a biodiversidade nativa.



A Austrália é o único continente, para além da Antártida, que não tinha gatos até à chegada dos europeus. Agora, no entanto, estes felinos ocupam 99,8% do território do continente, a uma densidade de um gato por cada quatro quilómetros quadrados. Esta é a descoberta de um novo estudo do Programa Nacional de Ciência Ambiental do governo australiano, que reuniu dados de mais de 90 estudos individuais realizados por 40 cientistas de diferentes instituições e que foi publicado na revista científica Biological Conservation.

Estes dados não são boas notícias para as muitas espécies únicas de pequenos mamíferos e aves a viver no continente, que frequentemente caem vítimas das suas garras. Acredita-se que os gatos selvagens sejam responsáveis pela extinção de 20 espécies nativas da Austrália e por terem colocado muitas outras na lista de espécies ameaçadas. Por exemplo, na Ilha de S. Francisco, os colonizadores importaram gatos para controlar os pequenos marsupiais Bettongia ogilbyi que estavam a comer os vegetais das hortas. Os felinos dizimaram estes animas.

“A população total de gatos selvagens na Austrália flutua entre 2,1 milhões, em tempos difíceis, e até 6,3 milhões, quando as chuvas generalizadas resultam na abundância de presas disponíveis”, disse Sarah Legge, da Universidade de Queensland, coautora da análise. O número é até inferior às estimativas anteriores que colocavam a população nos 20 milhões de animais, mas segundo a investigadora este facto também não é particularmente tranquilizador. “Só serve para mostrar quão destruidores os gatos são para a vida selvagem australiana porque não são precisos assim tantos para se ter um efeito negativo considerável.”



E, segundo descobriram os investigadores, os felinos são tão predominantes fora como dentro dos Parques Nacionais, dificultando o trabalho de conservação. Os gatos também estão até 30 vezes mais concentrados nas áreas muito urbanizadas do que em outras zonas, provavelmente graças à disponibilidade de comida. Também é verdade que são estes centros que originam muitos dos gatos selvagens que escapam para o mato e dizimam as espécies nativas.

“Este novo estudo mostra que a densidade dos gatos selvagens na Austrália é inferior à que se verifica na América do Norte e na Europa e, no entanto, os gatos selvagens têm sido devastadores para a nossa vida selvagem”, decalrou Gregory Andrews, Comissário das Espécies Ameaçadas do governo australiano.
“A Austrália é o único continente na Terra, para além da Antártida, onde os animais evoluíram sem gatos, o que é uma das razões por que a nossa vida selvagem é tão vulnerável a eles.”

Em 2015, o antigo ministro do ambiente, Greg Hunt, anunciou um plano para matar 2 milhões de gatos selvagens, o que enfureceu a comunidade global e personalidades como Brigitte Bardot.

Entre as medidas propostas pelos conservacionistas para controlar os danos causados pela população de gatos estão a "reconstrução" de habitats densos, nos quais os pequenos marsupiais têm mais esconderijos para escapar aos predadores, e o aumento da população de dingos nas áreas do interior. “Muitos trabalhos têm mostrado que quando se aumenta o número de dingos, o número de gatos diminui”, disse Christopher Dickman da Universidadede de Sydney.

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