Alexandra Azevedo é a autora dos livros “Ervas Silvestres Comestíveis” e “Frutos Silvestres Comestíveis” e da série “Natureza Comestível”.



Alexandra Azevedo, médica veterinária, ativista e etnobotanista por opção e paixão, é a autora dos guias práticos Ervas Silvestres Comestíveis e Frutos Silvestres Comestíveis editados pela Quercus em 2015 e autora e apresentadora da série de vídeos “Natureza Comestível”, uma co-produção do Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente (MPI) e da Quercus.

O UniPlanet falou com Alexandra Azevedo para ficar a conhecer um pouco melhor a natureza comestível de Portugal.


UniPlanet (UP): Antes de mais, gostaríamos de lhe agradecer esta oportunidade de aprender um pouco mais sobre a recoleção de alimentos silvestres e a “natureza comestível” de Portugal. Para começar, queríamos que nos contasse como se tornou recoletora. Já tinha conhecimentos sobre ervas e frutos silvestres comestíveis antes de se ter dedicado a esta atividade?

Sempre fui uma apaixonada pela Natureza e isso gerou uma enorme curiosidade em conhecer um pouco de tudo, e como tal fui adquirindo algum conhecimento sobre plantas, em especial as autóctones, mas de uma forma digamos muito genérica. O meu interesse na adolescência focou-se mais nos animais e decidi seguir Medicina Veterinária, profissão que exerço.

Só mais tarde um interesse particular pelas plantas começou a desenvolver-se e na sua génese teve o facto de ser ativista nas questões relacionadas com a alimentação e agricultura através do trabalho na Plataforma Transgénicos Fora e depois na Campanha pelas Sementes Livres. Ao aprofundar os meandros do sistema alimentar dominante comecei a explorar as alternativas e deparei-me com a recoleção.

Na minha região, a região Oeste, os hábitos de recoleção perderam-se por completo, portanto quebrou-se o elo de transmissão destes conhecimentos na geração dos meus pais e foi graças ao contacto com outras regiões e pessoas no âmbito das atividades como ativista que fui contactando com alguns alimentos silvestres e começando a aprender a reconhecê-los. Essa é uma questão que requer algum treino, isto para irmos identificando cada vez mais espécies, mas para começar basta termos a certeza de 2 ou 3, por exemplo. O importante é começar e entrar no espírito, depois tudo acontecerá em função da nossa disponibilidade e curiosidade.


UP: Que alimentos silvestres podemos encontrar em Portugal?

A região bioclimática que mais influencia o nosso país é a região mediterrânica, que é uma das regiões bioclimáticas com maior biodiversidade do planeta! A influência atlântica enriquece ainda mais esta biodiversidade, por isso podemos encontrar inúmeras espécies comestíveis. O alimento que merece destaque, quer pela abundância no nosso bosque autóctone quer pelo valor nutricional, é a bolota, depois temos muitos pequenos frutos; ervas com raízes, caules, folhas, rebentos ou flores comestíveis; cogumelos; algas marinhas; peixe e alguma carne das espécies cinegéticas.



Ervas silvestres | Foto: Alexandra Azevedo

UP: Quais são os melhores locais para se procurarem ervas comestíveis e que cuidados costuma ter quando as colhe?

As ervas em geral e as ervas comestíveis em particular preferem os locais humanizados, como bermas de estradas e caminhos, muros, depósitos de entulho, terrenos incultos e cultivados. Infelizmente muitos dos locais não são adequados por causa da contaminação ambiental causada pelo trânsito rodoviário, pesticidas, esgotos, etc. Na maioria das vezes faço a recoleção das ervas na minha própria horta, que é biológica, ou então em algumas áreas naturais ou terrenos abandonados na minha zona. As hortas são sem dúvidas dos melhores locais, pois as ervas podem ter condições para se desenvolver melhor e estão próximas.


UP: Vendo a série de vídeos “Natureza Comestível”, ficamos com vontade de sair e começar também nós esta aventura de recolher alimentos da natureza. Que conselhos e dicas tem para um principiante? Existe algum livro que gostasse de recomendar?

Começar pelas espécies mais fáceis de identificar, adquirir alguns livros, participar em workshops (eu própria tenho organizado ou participado como formadora em alguns) e eventos dedicados à temática, como o “Ervas e Companhia” organizado pela Casa da Cultura da Orada (Borba) e as Jornadas de Etnobotânica organizadas pela Confraria da Urtiga em Forno de Algodres (Guarda) e ainda ir perguntando a quem possa ter algum conhecimento sempre que haja a oportunidade.

Fui adquirindo e consultando uma bibliografia considerável ao longo dos anos, mas a informação mais específica sobre os usos culinários de alimentos silvestres, assim como a sua identificação, estava muito dispersa e incompleta, e esse foi o motivo para escrever os meus guias práticos das “Ervas Silvestres Comestíveis” e dos “Frutos Silvestres Comestíveis”, por isso quem vai começar agora nesta temática tem já muito trabalho facilitado e só podia recomendá-los, mas é claro para aprofundar mais o tema há alguns livros que também recomendo, como o “Manual de Cocina Bellotera para la Era post Petrolera”, de César Lema Costas, os livros de Maria Manuel Valagão, como “Tradição e inovação alimentar”. Para um conhecimento mais alargado das plantas recomendaria ainda os livros de Miguel Boeiro, como “As Plantas nossas irmãs”.




UP: Nos seus guias práticos “Ervas Silvestres Comestíveis” e “Frutos Silvestres Comestíveis”, procura recuperar os conhecimentos ancestrais da recoleção e partilha com os leitores ideias para uma alimentação mais natural e algumas receitas. Em que tipo de pratos se podem integrar os alimentos silvestres e as algas?

Nos meus guias não procurei apenas recuperar conhecimento ancestrais, mas alargar a referência a plantas ou partes de plantas comestíveis sem tradição de consumo, ou com tradição de consumo muito limitado a alguma região ou aldeia. De facto a minha preocupação foi uma compilação minimamente abrangente quanto às espécies comestíveis, que contivesse as informações mais relevantes sobre a sua utilização culinária, cuidados a ter e ainda que tivesse fotos razoáveis para facilitar a identificação. E se em relação às ervas e frutos a informação existente na bibliografia em Portugal antes dos meus guias estava dispersa e incompleta, em relação às algas marinhas ainda é inexistente, pois isso estou a trabalhar no próximo guia, ainda sem data prevista para a sua edição, mas provavelmente será em 2018.

Como muitos alimentos silvestres fazem parte da nossa tradição alimentar integrada na dieta mediterrânica, embora essa memória já tenha desparecido em alguns casos, já existem pratos bem estabelecidos, como os caldos de beldroegas, as sopas de cardos, o revolto de espargos-silvestres ou as pataniscas de erva-patinha (alga atlântica do mesmo género da nori usada no sushi japonês), mas basicamente podemos usá-los em todos os pratos em substituição ou complemento de algum legume cultivado ou de peixe, no caso das algas marinhas. É tudo uma questão de imaginação e ir experimentando e adaptando receitas.



Bolos de bolota | Foto: Alexandra Azevedo

UP: Quais são os seus alimentos silvestres preferidos e que plantas silvestres tem na sua horta?

São muitos os meus alimentos silvestres preferidos, mas talvez destacaria nas ervas a urtiga, nos frutos a bolota, as amoras-silvestres e as camarinhas, e nas algas marinhas quase todas! Adoro algas principalmente as que têm um sabor a mar mais intenso. Na minha horta tenho muitas ervas e posso dizer que grande parte das fotos no meu guia foi tirada aí. No meu jardim tenho várias árvores e arbustos autóctones com frutos comestíveis, mas ainda é preciso esperar mais alguns anos até terem uma produção satisfatória.


UP: Acha que na atual sociedade industrial faz sentido valorizar-se os alimentos silvestres e a recoleção?

Embora quase extinta, certo é que a recoleção persiste desde a pré-história! Os problemas crescentes com a alimentação, como as intolerâncias alimentares, doenças degenerativas e inflamatórias têm animado o debate sobre o que realmente devemos comer. Os conhecimentos científicos atuais têm estabelecido a relação entre muitas destas doenças e os alimentos modernos.

Uma coisa é certa: a nossa dieta tradicional é um rico património cultural milenar e a sua evolução está inscrita nos nossos genes, como tal o nosso organismo estará melhor adaptado aos alimentos ancestrais para além de enriquecerem e diversificarem a nossa alimentação, corrigindo carências nutricionais que caraterizam a dieta atual, também designada por dieta ocidental, pelo seu superior valor nutricional e funcional.

Por outro lado, estes alimentos têm ainda um potencial económico e turístico (turismo eco-gastronómico) ainda por explorar podendo assim contribuir para a nossa economia não só pela melhoria da saúde pública, mas também para diversificar o rendimento e a multifuncionalidade dos nossos sistemas agro-florestais, e deste modo moldar a nossa paisagem, que já hoje é apreciada por quem nos visita e poderá sê-lo ainda mais no futuro.




UP: Relativamente ao panorama português, conhece outros recoletores no país? Acha que esta prática está a ganhar adeptos?

Sim, vou conhecendo alguns recolectores e penso que a recoleção está a ganhar adeptos. É interessante verificar o surgimento de pessoas com interesse em técnicas de sobrevivência no meio natural e o reconhecimento e uso de alimentos silvestres é fundamental. Numa utilização mais para o dia-a-dia, como é o meu caso, por interesse ou necessidade numa alimentação mais natural, haverá também mais adeptos.


UP: Para terminar, gostaríamos de saber o que aprendeu com a recoleção. De que forma é que esta atividade mudou o seu modo de ver o mundo?

Como digo no final do primeiro vídeo da série “Natureza Comestível”
… a recoleção é para mim acima de tudo um ato de inteligência, porque nos faz melhores observadores, mais agradecidos, apreciar mais as coisas simples da vida e mais felizes. Muito mais felizes!


Vejam mais vídeos em:
Natureza Comestível
Guias práticos: "Ervas Silvestres Comestíveis" e "Frutos Silvestres Comestíveis" à venda no site da Quercus


Bolotas no chão | Foto: Alexandra Azevedo

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