Há 20 mil crianças a trabalhar na produção de baunilha, a segunda especiaria mais cara do mundo, em Madagáscar, estima a OIT.



Cerca de 80% da baunilha vendida no mercado global provém de Madagáscar. Esta baunilha é usada em chocolates, bolos, açúcar, gelados e outros produtos vendidos aos consumidores por algumas das maiores marcas do mundo.

Embora a baunilha seja a segunda especiaria mais cara do mundo, os agricultores de Madagáscar que a produzem vivem em extrema pobreza e têm dificuldade em alimentar as suas famílias. Para eles, os meses de março e de abril são conhecidos como os “meses da fome”.

Xidollien tem 9 anos e é apenas uma das 20 mil crianças que a Organização Internacional do Trabalho estima que trabalhem na produção de baunilha em Madagáscar. De facto, segundo a organização, cerca de um terço da mão da obra na indústria de baunilha do país é composto por crianças com idades compreendidas entre os 12 e os 17 anos.

A baunilha que Xidollien produz juntamente com a sua família vale, atualmente, entre 188€ e 376€ o quilo. No entanto, por um quilo de vagens de baunilha, a sua mãe, Liliane, recebe apenas 7€.
Trabalho infantil, exploração, pobreza, espirais de dívida e roubo são realidades que assombram a cadeia de fornecimento da valiosa baunilha, revela um novo relatório do centro de investigação dinamarquês Danwatch.

Liliane não quer que os seus filhos, Xidollien e Yokle, continuem na produção de baunilha. “Gostava que eles prosseguissem os estudos, mas não sei se é possível”, disse.

Randria, um produtor de baunilha de 41 anos, pai de dois filhos, um com 3 e outro com 7 anos, foi outro dos entrevistados pelos investigadores da Danwatch.
Quando lhe perguntaram se a sua família comia três vezes ao dia, Randria respondeu com uma risada amarga: “Nem perto. Lutamos e sofremos, especialmente no que diz respeito à comida. Comprar arroz por si só é uma batalha. É difícil, mas arranjamos uma maneira. Comemos o que quer que encontremos: mandioca, bananas, batatas selvagens. Sempre o mesmo.”


Foto: Peter Lykke Lind/Danwatch

Liliane diz que quando consegue, compra um conjunto novo de roupa para os filhos. Cada membro da família só tem um conjunto de roupa, que usa todos os dias.

A condição precária dos produtores está a ser ignorada pelos exportadores e comerciantes que lucram com o comércio da baunilha de Madagáscar, estimado em 179 milhões de euros, dizem os investigadores.
“Os produtores estão a ter muito pouco lucro”, declarou Jesper Nymark, diretor executivo da Danwatch. “Vários dos importadores e comerciantes com quem falamos não conseguem dizer de que quintas a sua baunilha provém e se existe baunilha produzida por crianças na sua cadeia de fornecimento.”

“Quando as empresas (...) se aproveitam de violações dos direitos humanos – por exemplo, se os seus produtos são tornados mais baratos graças ao trabalho infantil – então elas são cúmplices do abuso”, defendeu Andreas Rasche, professor da Escola de Negócios de Copenhaga. “Alegar ignorância devido à falta de sistemas adequados de avaliação de riscos não é justificação.”

Em março, quando o dinheiro ganho com a última colheita já foi gasto e os produtores ficam desesperados com fome, em muitos casos, só existe uma opção para eles: pedir um empréstimo aos intermediários que lhes compram a baunilha, usando a próxima colheita como garantia – o chamado contrato da flor de baunilha. Os comerciantes estabelecem o preço e voltam depois da colheita para receber o dinheiro da dívida e os juros elevados que se foram acumulando, comprando as vagens muito abaixo do seu valor de mercado.

No entanto, se a colheita for má ou se as suas plantas forem roubadas, podem ser forçados a vender gado, bens, a casa e, no pior dos casos, as suas filhas – algumas com apenas 12 anos – para pagar a dívida.

“É a pior coisa que pode acontecer a um produtor”, disse Rajao, explicando que, frequentemente, os agricultores têm de pedir outro empréstimo assim que acabam de pagar o último, numa espiral de dívida sem fim. Rajao, que passou a sua infância nos campos de baunilha, espera que os seus filhos tenham uma vida diferente.

A lei de Madagáscar proíbe as crianças com menos de 15 anos de trabalhar. O país também ratificou as convenções internacionais sobre o trabalho infantil e a idade mínima laboral. Mesmo assim, a OIT diz que existem 2 milhões de crianças dos 5 aos 17 anos a trabalhar em várias atividades – quase 9% da população.

As crianças até aos 14 anos têm de ir à escola no país, mas existem poucas escolas públicas e as privadas com propinas são muitas vezes a única opção para as famílias de agricultores. É este o caso de Randria. “Normalmente consigo pagar, mas às vezes tenho dificuldade e então a escola manda as crianças para casa”, disse aos investigadores


Foto: Peter Lykke Lind/Danwatch

Outro problema que domina os campos da preciosa baunilha é o roubo. “De cada vez que me ausento, algo é roubado”, queixa-se Moara, um agricultor de 51 anos. Em 2015, metade da sua colheita foi-lhe roubada e, agora, para evitar que isso volte a acontecer, Moara dorme nos campos, entre as orquídeas de baunilha.

“Os comerciantes e os importadores são obrigados pelas diretrizes das Nações Unidas a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para conhecer a sua cadeia de fornecimento e para corrigir as violações aos direitos humanos, caso elas ocorram”, disse Jesper Nymark. “Ainda há muito a fazer para assegurar que as pessoas em Madagáscar são apoiadas, não exploradas, como consequência da falta de transparência na cadeia de fornecimento da baunilha que é vendida nos supermercados.”

O roubo e o uso de trabalho infantil são tão comuns que um exportador admitiu à Danwatch não ter forma de saber se a baunilha que vende aos importadores espalhados pelo mundo será o fruto roubado do trabalho de uma criança.


Foto: Peter Lykke Lind/Danwatch
A orquídea trepadeira que produz a baunilha é originária do México. As abelhas que a polinizam não existem em Madagáscar, o que significa que cada planta tem de ser polinizada à mão, no dia em que a flor abre. È este o trabalho de Yokle, de 14 anos.

1ª foto: Xidollien tem 9 anos e trabalha na produção de baunilha (Peter Lykke Lind/Danwatch)

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