Morreu, depois de 33 anos de cativeiro, a orca Tilikum da SeaWorld, uma das estrelas do documentário Blackfish.



Morreu, no dia 6 de janeiro, Tilikum, a orca mais famosa dos EUA, depois de um ano a lutar contra uma infeção pulmonar. Se Tilikum é conhecido pelo seu envolvimento na morte de três pessoas durante a sua vida em cativeiro, também o é por ter transformado a forma como encaramos a indústria dos parques aquáticos e o confinamento, treino e exibição destes animais.

Tilikum morreu no mesmo parque aquático, em Orlando, onde passou a maior parte da sua vida. Estima-se que teria 36 anos – uma idade mais avançada do que a da maioria das orcas em cativeiro, salienta a SeaWorld, e que, no entanto, não se compara à das orcas em liberdade. Dias antes, tinha sido dada igualmente como morta Granny, a famosa orca selvagem, que teria 105 anos.

A SeaWorld louvou a “vida longa e enriquecedora” de Tilikum, que “inspirou milhões de pessoas” – declarações que contrastam acentuadamente com as de treinadores e outras instituições. Tilikum é uma figura trágica, disse um dos seus antigos treinadores, John Jett. “Pensei muitas vezes no terror, confusão e stress que o Tilly foi forçado a suportar.”



Tilikum e alguns treinadores na SeaWorld, em 2011 | Foto: Phelan M. Ebenhack, AP
!ª imagem: Tilikum durante um espetáculo em 2009 | Foto: Mathieu Belanger, Reuters


Nascido nas águas gélidas a oeste da Islândia, Tilikum foi capturado em 1983 com dois anos de idade, numa altura em que as orcas eram muito procuradas pelos parques aquáticos e as multidões corriam para as ver. Foi levado do oceano para um tanque de cimento, onde permaneceu durante um ano até ser transferido para a Sealand of the Pacific, no Canadá. Passaria o resto da sua vida em cativeiro.

Em 1991, algo de trágico aconteceu: uma treinadora que trabalhava em part-time escorregou para dentro do tanque onde se encontrava Tilikum e duas baleias-assassinas fêmeas e morreu afogada. A Sealand nunca chegou a recuperar, acabando por fechar em 1992, depois de vender as suas orcas à SeaWorld. Tilikum estaria envolvido em mais duas mortes: uma de um intruso que se infiltrou no parque à noite, em 1999, e o mais mediático dos três casos, a morte violenta da treinadora Dawn Brancheau, em 2010.

A notícia deste último incidente correu o mundo. Tilikum passou a ser visto como um monstro, até que, em 2013, estreou o documentário Blackfish (Orca - Fúria Animal), que deu a conhecer a história e a vida solitária do animal em cativeiro.



Mesmo a realizadora de Blackfish, Gabriela Cowperthwaite, admitiu ter medo de Tilikum antes de começar a gravar o seu documentário. "Ele aterrorizava-me”, disse. "Tinha pesadelos com ele. Foi só quando me inteirei da sua captura, da sua vida em cativeiro, que comecei a compreender a profundidade desta que é uma tragédia a tantos níveis.”

O filme teve um impacto esmagador no público. De súbito, começou-se a questionar todo o sistema por trás da forma como Tilikum tinha sido criado, treinado e exibido ao público.

“Em vez da baleia-assassina icónica e feliz comemorada pela SeaWorld e pelos seus fãs ao longo de cinco décadas, Tilikum exigiu que o mundo confrontasse a sua realidade, a realidade de Shamu, que envolvia a separação da família, confinamento, aborrecimento, doença crónica, agressão entre as baleias-assassinas do parque aquático e agressão contra os treinadores”, escreveu, para a National Geographic, Tim Zimmermann, produtor e coautor de Blackfish.

Com 6,8 metros e 5700 kg, aquele que podia ter sido um rei do oceano ficou reduzido a ser um bobo da corte com uma barbatana dorsal dobrada, salpicando um público da SeaWorld em delírio, no final de espetáculos ao nível do circo”, disse.

A transformação do predador selvagem numa atração para turistas não foi fácil. Primeiro havia o stress da separação da família. Ao contrário das orcas das quais foi progenitor e que nasceram em cativeiro, Tilikum foi retirado ao oceano. A orca é uma espécie muito social que passa grande parte da vida em grupos familiares e que percorre grandes distâncias no mar.

Na pequena piscina onde vivia, Tilikum foi recorrentemente vítima de agressões por parte das orcas fêmeas, sendo demasiado grande para conseguir evitar os seus ataques naquele espaço limitado. E Tilikum tinha ainda uma agenda exigente de treinos e espetáculos.



Esta imagem aérea da SeaWorld tornou-se viral quando as pessoas se aperceberam da diferença de tamanho entre o parque de estacionamento da empresa e os tanques onde vivem as suas orcas.

No documentário, antigos treinadores da SeaWorld criticaram as práticas do parque aquático, afirmando que eram prejudiciais às orcas e perigosas para os treinadores.
Depois da morte de Dawn Brancheau, muitos dos seus amigos continuaram a cuidar da baleia-assassina, pois temiam as repercussões do incidente na sua qualidade de vida. “Tivemos pena de Tilikum porque sabíamos que a sua vida ficaria drasticamente mudada para sempre”, declarou John Hargrave, antigo treinador. “Que ele iria ficar mais isolado, com menos contacto e interações. Queríamos que ele fosse tratado com dignidade e respeito diariamente e não como um monstro.”

A orca que as pessoas viam como aterrorizadora tornou-se um símbolo pela libertação destes cetáceos em cativeiro. Por causa da sua história, a SeaWorld e outros parques aquáticos começaram a perder público e lucros, iniciaram-se protestos e campanhas, músicos boicotaram os parques, uma companhia aérea terminou uma relação de 25 anos com a instituição e a SeaWorld anunciou que iria terminar o seu programa de criação de orcas assim como os espetáculos com estes animais. Esta será a última geração de baleias-assassinas nos seus parques. “À medida que a perceção da sociedade sobre as orcas continua a mudar, a SeaWorld está a mudar com ela”, comentou o CEO da empresa, Joel Manby. Em 2016, a Califórnia proibiu os espetáculos e a criação de orcas no estado.

“Acho que esta é a coisa mais impressionante que surge da história de Tilikum”, disse Tim Zimmermann. “Matou 3 seres humanos. E, no entanto, quando se fica a conhecer a história da sua vida, ele torna-se de facto a vítima e uma pessoa compadece-se dele.”

Tilikum não escolheu ser o símbolo de uma indústria, de uma relação entre o homem e a natureza que não correu bem, diz o produtor de Blackfish. Ele era apenas uma cria de orca selvagem cuja vida foi subitamente interrompida pelo mundo dos seres humanos.


Orca selvagem

“E o que mais me entristece no drama de Tilikum e na sua eventual morte é a vida que ele nunca viveu. Nunca fui capaz de ver uma baleia-assassina selvagem sem pensar em Tilikum, definhando quase sempre sozinho no seu tanque em Orlando”, escreve na National Geographic. “Pergunto-me como teria sido ele como uma baleia-assassina adulta, navegando o alto mar com uma barbatana dorsal régia e direitíssima. Pergunto-me até onde teria viajado, a que profundidade teria mergulhado e quão deslumbrante poderia ter sido como uma baleia-assassina totalmente selvagem.”

A vida de Tilikum deixa-nos uma mensagem importante, a de que precisamos de “repensar a facilidade casual com que procuramos utilizar a natureza e todas as coisas selvagens para fins humanos. Precisávamos desesperadamente disso. Para mim, esse será o mais importante e verdadeiro legado de Tilikum”, disse.


Uma entrevista com a realizadora de Blackfish, Gabriela Cowperthwaite, no programa B.Y.O.D. de Ondi Timoner.

Subscrever a Newsletter

Partilha:

Comentários:

0 comentários. Diz-nos o que pensas

Obrigado pelo comentário! Respeite os outros leitores. Comentários ofensivos ou com linguagem imprópria serão eliminados.