Um estudo do Banco Mundial analisa os efeitos das transferências de dinheiro para os mais necessitados no consumo de álcool e tabaco.



Alguns governos têm vindo a apostar em dar dinheiro diretamente aos mais necessitados, em vez de lhes garantir acesso a determinados serviços ou bens, como comida ou alojamento. Algumas destas transferências de dinheiro são condicionais, já que é necessário cumprir-se certos requisitos, como mandar os filhos para a escola ou vaciná-los. Outras são incondicionais e os seus beneficiários são livres de utilizar o dinheiro da maneira que lhes for conveniente.

Um dos “inimigos” deste tipo de transferência é a perceção quase generalizada de que as pessoas desfavorecidas gastariam o dinheiro gratuito em vícios, como o tabaco e o álcool. No Quénia, um relatório sobre a opinião das partes interessadas relativamente a estes programas revelou que existia “uma crença generalizada de que as transferências de dinheiro seriam utilizadas indevidamente ou mal direcionadas para o consumo de álcool ou para outras formas não essenciais de consumo”. No entanto, segundo um estudo de David Evans, do Banco Mundial, e de Anna Popova, da Universidade de Stanford, passa-se exatamente o oposto.

Os investigadores examinaram 19 estudos que avaliam o impacto das transferências de dinheiro nas despesas em cigarros e bebidas alcoólicas. Em nenhum dos trabalhos se verificou um aumento do consumo destes produtos e em muitos deles houve uma redução.

Para além de examinarem os resultados dos estudos individuais, os investigadores também realizaram uma metanálise (uma técnica estatística para combinar os resultados de vários estudos) para saber o efeito global das transferências no consumo de álcool e tabaco. A metanálise revelou, de novo, que houve uma ligeira redução no consumo destes produtos, conta o Quartz.

David Evans e Anna Popova apontam algumas teorias que poderão ajudar a explicar estes resultados. Em primeiro lugar, as transferências de dinheiro podem causar uma mudança nos cálculos económicos de um agregado familiar pobre. Antes, gastar dinheiro na educação ou saúde poderia parecer fútil, mas, depois de receberem dinheiro, o investimento na educação dos filhos pode revelar-se uma decisão sensata para os pais. E, para tal, poderá ser necessário cortar na bebida e no tabaco.

Existe também o “efeito flypaper”. Estudos sobre economia comportamental têm demonstrado que, quando se oferece dinheiro para que este seja utilizado para um determinado propósito, as pessoas e as organizações costumam usá-lo para esse fim, mesmo sem que ninguém as obrigue a tal. E no caso das transferências de dinheiro, costuma ser dito aos agregados familiares para usarem o dinheiro no bem-estar da família.

Os investigadores salientam ainda o facto de que costumam ser as mulheres a receber estas transferências. De acordo com alguns estudos, quando as mulheres controlam o rendimento do agregado, existe uma maior probabilidade de que este seja usado em comida e na saúde dos filhos.

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