No Hospital de Torrejón, a terapia com animais tem tido grandes resultados.



No Hospital de Torrejón, em Espanha, às terças e quintas acontece algo de invulgar. São onze horas da manhã e um grupo de idosos que sofrem de depressão conversa e ri, alegremente. Esta boa disposição deve-se à presença de Tango e Ron na sala.

Tango, um Golden retriever, e Ron, um Bichon maltês, são dois cães da organização Yaracán, dedicada à terapia assistida por animais, cujos membros concebem diversos exercícios para ajudar os idosos a manter o otimismo e a exercitar a memória.

“Antes não queria viver nem ver ninguém, mas desde que venho [à terapia] com cães, há três anos, estou muito melhor”, conta Antonio, um dos pacientes com depressão.

“Estou encantada por ter aberto as portas à iniciativa porque os resultados são muito bons e o segredo está no facto de os cães não julgarem nem questionarem o paciente, o que lhe permite abrir-se e relaxar para trabalhar na dinâmica da terapia”, conta, ao El País, Helena Díaz, diretora do departamento de Psiquiatria do hospital, que admite ter encarado a proposta de trabalhar com cães com ceticismo, no princípio. Acabou, contudo, por se render aos factos.

“Trata-se de uma terapia eficaz, com a qual se obtêm resultados reais, como a diminuição da medicação nos pacientes, a redução da ansiedade, da tristeza ou da sensação de solidão, assim como a melhoria da memória, da autoestima e da psicomotricidade”, diz.

Os dados recolhidos pela Unidade de Saúde Mental do Hospital de Torrejón comprovam a eficácia da terapia assistida por animais: 60% dos pacientes com depressão reduziram a sua medicação, houve um aumento de cerca de 80% na comparência nas consultas dos pacientes com esquizofrenia, que normalmente se mostram reticentes em fazê-lo, e reduziu-se em metade o uso de fármacos no caso das crianças.

De volta ao grupo de pacientes reunidos, Ron, o cão, abserva-os com atenção e aproxima-se da pessoa que parece menos à vontade para receber afagos e, quem sabe, um abraço. “Os cães têm empatia e instinto para saber que pessoa do grupo necessita de mais atenção, quando se encontra mais em baixo”, explica Begoña Morenza, directora da Yaracán, ao El País.

Begoña distribui cartões para um jogo que tem como objetivo melhorar a memória e no qual os idosos participam, entre muitos risos, enquanto Tango apoia as patas dianteiras na mesa para chamar a atenção e “supervisionar” o seu progresso. Os idosos colocam por ordem atividades rotineiras, como “pequeno-almoço”, “desligar a luz e o gás antes de sair de casa” e “levar as chaves”, exercícios estes que se provam essenciais para alguns destes pacientes.

Foto: Hospital Universitário de Torrejón

Não são só os idosos a tirar proveito desta terapia. Mónica, uma paciente do grupo de jovens com problemas psicológicos que participa no programa, explica que, para ela, a terapia foi muito importante, tanto a nível de integração social como laboral. Ajudou-me a não me isolar, a sair de casa e a retomar os estudos para ser auxiliar de terapia com animais, conta.

As crianças também participam no programa. “São os pacientes com os quais se obtêm os melhores resultados do trabalho com cães. São crianças acostumadas a que todo o mundo as repreenda pelo seu mau comportamento, mas o cão atua como um catalisador das usas emoções, que não as questiona. As repreensões desaparecem e o paciente relaxa”, explica a psiquiatra Helena Díaz.
A organização Yaracán também trabalha com dois colégios, em horário escolar, através de programas coordenados com os professores, que ajudam na integração, educação e na aprendizagem dos mais novos.

Graças aos resultados obtidos em Torrejón, há outros centros de saúde do país “que começam a ganhar interesse em introduzir de forma sistemática esta ferramenta, que reduz os custos do sistema de saúde porque diminui a utilização de medicação”, diz Helena Díaz.

Quanto aos cães, explica a diretora da Yaracán, devem possuir características chave de temperamento e carácter “como gostar do contacto com pessoas, assim como ter uma preparação específica para que sejam pacientes, disciplinados, previsíveis e que saibam gerir de forma adequada qualquer situação.”
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