Peixes de espécies ameaçadas são por vezes vendidos com o nome de outras espécies nos mercados em todo o mundo, segundo um estudo da Oceana.



De acordo com um novo relatório da organização de conservação Oceana, não é raro que um peixe de uma espécie ameaçada acabe à venda nos mercados sob o nome de outra espécie, um pouco por todo o mundo. De facto, uma em cada cinco das mais de 25 mil amostras de pescado testadas pela organização provou estar mal catalogada. "É muito provável que o consumidor comum tenha comido peixe indevidamente identificado", afirmou Beth Lowell, uma das autoras do relatório.

No Brasil, por exemplo, os pescadores capturam ilegalmente uma espécie de peixe-serra (Pristis microdon) classificada como criticamente ameaçada pela UICN e fazem-na passar por tubarão, cujo comércio é legal.
Segundo Beth Lowell, os pescadores recorrem a esta prática frequentemente, no caso de espécies capturadas acidentalmente (capturas acessórias) ou pescadas ilegalmente e de modo intencional. “Eles vão rotulá-lo com o nome que quiserem para se certificarem que o podem vender no mercado aberto.”

Uma perspectiva internacional

Para a realização do relatório, a Oceana analisou mais de 200 estudos, reportagens, análises de ADN e documentos de governos e de ONGs sobre a fraude no pescado em 55 países e criou um mapa interativo com os dados recolhidos. Um desses estudos descobriu que, na Itália, 82% dos 200 espadartes, garoupas e percas testados estavam incorretamente identificados. A cavala é vendida como barracuda na África do Sul. Em Hong Kong, apenas uma em 29 amostras de abalone estava corretamente identificada. Na Europa, a solha e a pescada foram os peixes que mais frequentemente foram mal catalogados. Em muito casos, peixes mais baratos “substituem” peixes mais caros.
Em Portugal, a média de peixe indevidamente identificado, nas cidades do Porto e de Lisboa, é de 6%, sendo que em Faro a média sobe para os 10%, como se pode verificar no mapa.



Os autores descobriram fraude em todos os sectores da cadeia de comercialização, da distribuição ao retalho. “Estávamos constantemente à espera de encontrar uma exceção, um lugar onde os produtos de pesca não estivessem indevidamente catalogados”, declarou a investigadora.

Cerca de 80% dos estudos foram realizados em estabelecimentos comerciais e restaurantes. Uma vez que se encontram no final da cadeia de fornecimento, os retalhistas costumam ter um número mais elevado de casos de má rotulagem. Os investigadores não sabem, no entanto, se os restaurantes e as lojas estavam propositadamente a enganar os seus clientes ou se eles próprios seriam vítimas desta fraude.

Espécies ameaçadas de extinção

16% dos peixes indevidamente identificados eram de espécies com algum risco de conservação, conta a National Geographic.
O Epinephelus drummondhayi, classificado como criticamente ameaçado, é vendido como garoupa nos EUA; a merluza-negra passa por peixe-carvão do Pacífico, na China, e 20% das espécies de Lutjanidae avaliadas nos EUA eram, na realidade, espécies que enfrentam um elevado risco de extinção na natureza. Dois chefs de sushi, na Califórnia do Sul, foram acusados de vender carne de baleia-sardinheira – uma espécie ameaçada – como atum.


Baleia-sardinheira com cria

Segundo o relatório, esta fraude pode também ter repercussões para a saúde. Mais de metade das amostras identificadas como espécies substitutas apresentavam algum risco para a saúde, incluindo parasitas, químicos e toxinas como a ciguatera, que pode causar problemas neurológicos.

Gavin Gibbons, representante do Instituto Nacional de Pescarias dos EUA, criticou o relatório, defendendo que as suas descobertas não refletiam a realidade de todo o pescado vendido globalmente, concentrando-se apenas nos casos dos estudos selecionados. Na sua opinião, a melhor solução para este problema de fraude passa pelo cumprimento da lei e não por um aumento de regulamentos burocráticos. “O foco da Oceana nas espécies com maior incidência de casos de má rotulagem distorce as suas descobertas, deliberadamente”, escreveu num email.
Beth Lowell não concorda com estes argumentos. Com mais de 25 000 amostras de todo o mundo analisadas, a investigadora afirma tratar-se do estudo sobre a fraude no pescado mais compreensivo até à data. “Este relatório revela que este é um problema global”, afirmou, “e que não vai desaparecer sozinho”.
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