Sam Altman, presidente do Y Combinator, defende que um rendimento básico funcionaria mesmo que 90% das pessoas não trabalhassem.

Sam Altman

Um dos grandes argumentos contra o rendimento básico incondicional (RBI) – um rendimento atribuído a todos os cidadãos, ricos ou pobres, com empregos ou não, para cobrir o custo de vida básico – é o de que seria um desincentivo ao trabalho.

Sam Altman, presidente do Y Combinator, um acelerador de startups que investiu em projetos famosos como o Airbnb, o Dropbox e o Reddit, acredita, no entanto, que o RBI seria viável mesmo perante uma drástica perda de produtividade.
“Talvez 90% das pessoas vão fumar canábis e jogar videojogos. Mas se 10% das pessoas forem criar produtos e serviços novos e riqueza, isso constitui, ainda assim, um ganho tremendo”, declarou.
Um sistema como o do RBI poderia permitir às pessoas a liberdade para se concentrarem nos seus verdadeiros interesses e, deste modo, “aumentar a inovação no mundo”.

O Y Combinator planeia financiar um projeto de investigação sobre este tipo de rendimento, que envolverá um grupo de 100 famílias a quem será atribuído um rendimento básico durante um período que irá de 6 meses a um ano. O objetivo será observar-se, nas palavras do presidente, “o que acontece”.
“Será que aprendem novas competências? Será que criam riqueza para a sociedade? Todo esse tipo de coisas.”

A “segunda era das máquinas”, como lhe chama Erik Brynjolfsson, professor na MIT, trará consigo benefícios, mas também poderá causar o desaparecimento de inúmeros postos de trabalho. Sam Altman acredita que esta “destruição de empregos” está a acontecer a um ritmo mais acelerado do que as pessoas fora de Silicon Valley se apercebem.
“Sempre que tivemos algum tipo de revolução social importante – tivemos a Revolução Agrícola, tivemos a Revolução Industrial – , onde de cada vez que uma quantidade significativa de empregos é eliminada num período relativamente curto de tempo, as pessoas acabam, eventualmente, por descobrir novas coisas para fazer. Mas existe muita instabilidade enquanto estão a acontecer”, disse, acrescentando que “deveria existir um limite abaixo do qual nós, como sociedade, não deixaríamos que as pessoas caíssem”.

“Acho que a convicção básica de uma criança é a de que todos deveriam ter comida para comer e um sítio onde dormir e a maioria das crianças acha incrivelmente injusto que este não seja o caso. De facto, acho que isso é tão universal que está, de alguma forma, inscrito nos nossos genes, esta ideia de equidade, argumenta Altman.
A proposta de um rendimento básico lança o debate sobre o valor – não só de um ponto de vista económico como também moral – do trabalho. “O tipo de ideal puritano americano de que o trabalho árduo por si só tem valor, ponto final, e que não se pode contestar isso, acho que está errado”, diz o presidente do Y Combinator.

Evelyn Forget, economista da Universidade de Manitoba, no Canadá, considera que “existem muitos tipos de trabalho. Acho que as pessoas precisam de criar significado nas suas vidas e para muitas isso vem através do trabalho. Não tenho a certeza de que precisem, necessariamente, de oito horas de trabalho por dia e de 40 horas por semana para encontrar esse significado”.

“Se olharmos para os séc. XVIII e XIX, alguns dos grandes avanços científicos e alguns dos grandes progressos culturais foram feitos por pessoas que não trabalhavam. (...) Estas eram pessoas que dispunham de meios da sua família suficientes para se sustentarem. Não tinham, certamente, de sujar as suas mãos fazendo os tipos de trabalho que tomamos por garantidos. Não acho que estes indivíduos se sentiam inúteis; não considero a sua contribuição insignificante. Acho que foi muito importante para o desenvolvimento do mundo”, disse a economista, que tem analisado os resultados de várias experiências realizadas com um rendimento básico nos EUA e no Canadá.

O argumento que vê no RBI um desincentivo ao trabalho tem sido refutado por estudos e experiências que sugerem que, ao invés de desincentivar, encoraja as pessoas a trabalhar, ao fazê-las sentirem-se mais seguras e ao tornar serviços, como o transporte e as creches, mais acessíveis.

Ouça ainda o episódio “Será que o mundo está pronto para um rendimento básico garantido?” do Freakonomics Radio (em inglês).
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