Poverty Inc. é um documentário provocador que examina o efeito da ajuda humanitária nas economia locais e o papel às vezes duvidoso das ONGs.

Documentário Poverty Inc.

Como se a pobreza não fosse um fenómeno suficientemente desafiador por si próprio, o tempo tem revelado que as boas intenções de estranhos podem, em muitos casos, tornar os problemas piores – uma ironia cruel que serve de base ao documentário de Michael Matheson Miller, Poverty Inc., um filme com uma mensagem difícil de aceitar, especialmente porque dá a entender que algumas organizações de ajuda humanitária podem estar, na verdade, a lucrar com o apoio.

A ideia não é desencorajar o ato de dar, mas ilustrar como o paradigma atual não funciona, providenciando exemplos claros e soluções práticas.

O ponto de vista do realizador não podia estar melhor ilustrado do que no caso de um produtor de ovos de Ruanda que tinha estreado o seu negócio quando uma igreja americana bem intencionada decidiu enviar ovos grátis à população local: de um dia para o outro, o empreendedor viu-se impossibilitado de vender os seus bens no mercado e, embora os habitantes locais tenham beneficiado com esta situação, por um curto espaço de tempo, quando a igreja virou a sua atenção filantrópica para outro lugar, o produtor já tinha perdido o seu negócio e a indústria de ovos local já tinha sofrido consequências.

Este exemplo, contado não-oficialmente por um membro de uma organização não governamental, ecoa de muitas formas ao longo do filme – desde entrevistas a empreendedores cujos negócios não conseguiram competir com a súbita chegada de “bens grátis” a pessoas em cargos de alto nível, como o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que reconheceu o erro de despejar milhões de toneladas de arroz subsidiado pelos EUA, no Haiti, arruinando a agricultura local. “Foi um erro”, confessa Clinton. “Tive de viver todos os dias com as consequências da perda da capacidade de se produzir uma plantação de arroz no Haiti para alimentar essa gente, por causa do que fiz.”

Sabe bem dar, admite Miller, e deve-se reconhecer o papel dos EUA e dos outros países no apoio ao continente africano, desde os anos 60 em que imagens trágicas de crianças famintas chamavam à atenção para o problema da fome em África, ao mesmo tempo que davam uma impressão errada deste continente, como sendo árido e com poucos recursos.

O problema, adverte o documentário, é que poucos param para pensar no que acontece depois de terem passado o cheque, nunca se chegando a aperceber de que o simples ato de dar pode ter um efeito prejudicial.


Quando os países desenvolvidos aparecem para auxiliar os pobres, isto cria um sistema de dependência do qual o, assim chamado, Terceiro Mundo tem dificuldade de sair. Como no documentário de Ricardo Pollack, de 2012, The Trouble with Aid (cuja sequência de 7 desastres humanitários faz com que toda a ajuda estrangeira pareça fútil, ou pelo menos contra-productiva), Poverty Inc. pisa uma linha delicada entre condenar as ONGs e encorajar outras almas caridosas a pensar duas vezes sobre o tipo de apoio que providenciam a sociedades carenciadas.

O realizador entrevista, por exemplo, um casal americano que tinha ido ao Haiti na esperança de adotar uma criança e que se deparou com a realidade dos orfanatos locais estarem a encorajar mães pobres a entregar os seus filhos ao invés de providenciarem casas às crianças sem pais. O casal adotou, então, um plano totalmente diferente – criou uma empresa de joalharia onde os haitianos ganham o suficiente para comprar casa e alimentar os seus filhos. O documentário está repleto deste tipo de exemplos, viajando um pouco por todo o planeta para fornecer uma coleção diversa de estudos de caso reais.

Embora o título do documentário sugira quase um movimento de conspiração para manter os pobres no seu lugar enquanto uma rede de ONGs enriquece, Miller concentra-se mais naqueles que pensam fora da caixa – onde a “caixa” é um sistema através do qual países e corporações lucram. Neste sentido, o filme realça empreendedores que se destacaram em países pobres, como Herman Chinery-Hesse e Magatte Wade, que não poupam críticas aos cavaleiros das cruzadas anti-pobreza, como Bono e Blake Mycoskie, fundador da Toms Shoes, que se concentram mais em dar esmolas do que em fornecer ferramentas para que os necessitados se ergam por si próprios.

Voltamos ao velho dilema “dar um peixe a um homem” vs. “ensinar um homem a pescar”, no qual os donativos criam uma solução temporária enquanto que ajudar na formação e na construção de ligações ao mercado mundial poderiam criar uma saída. O documentário é decididamente pró-capitalista, implicando que a única esperança para os pobres é a de conseguirem sair da sua situação por si próprios, quando é visível que o mesmo sistema não tem sido, exatamente, bem-sucedido na erradicação da pobreza nos países desenvolvidos.

“Enquanto outros dão sem pensar, Poverty Inc. oferece alimento para o pensamento.”

Duração: 91 min.
Ano: 2014

Fonte: Variety Magazine

Partilha:

Comentários:

0 comentários. Diz-nos o que pensas

Obrigado pelo comentário! Respeite os outros leitores. Comentários ofensivos ou com linguagem imprópria serão eliminados.