Escondida debaixo dos nossos pés, existe uma supervia de informação que permite às plantas comunicar e entreajudar-se. É feita de fungos.



É uma rede de informação que permite a uma população grande e diversificada comunicar, mesmo com quem está distante, entreajudar-se e até cometer crimes.
Não, não é a internet. São fungos. Embora os cogumelos sejam a parte mais conhecida de um fungo, a maioria dos seus corpos é constituída por um emaranhado de pequenos filamentos, conhecidos como micélio. Estes filamentos trabalham como uma espécie de rede subterrânea, ligando as raízes de diferentes plantas.
Aquela árvore no jardim está, provavelmente, em comunicação com um arbusto a vários metros dela, graças à “wood wide web”, como tem sido apelidada pelos cientistas.
Quanto mais se aprende sobre estas redes, mais as nossas ideias sobre as plantas precisam de mudar. Elas não estão apenas a crescer em silêncio. Ao estarem ligadas à rede de fungos, podem ajudar os seus vizinhos, partilhando nutrientes e informação – ou sabotar plantas indesejadas.

A Internet Natural da Terra

Cerca de 90% das plantas terrestres têm uma relação simbiótica com fungos. Esta parceria, em que os fungos colonizam as raízes de uma planta, é conhecida como micorriza.
Nas micorrizas, as plantas providenciam alimento, em forma de hidratos de carbono, aos fungos, que, por sua vez, as ajudam a absorver água e lhes fornecem nutrientes como fósforo e azoto, através dos seus micélios.
As redes de fungos ajudam as plantas a crescer e também ajudam a melhorar os seus sistemas imunitários. Quando um fungo coloniza as raízes de uma planta, desencadeia a produção de químicos de defesa, o que torna as posteriores respostas do sistema imunitário mais rápidas e eficientes. O simples ato de se ligarem às redes miceliais torna as plantas mais resistentes às doenças.
E isto não é tudo. As micorrizas também conectam plantas, mesmo que estas estejam muito afastadas. Enquanto estudava fungos, o cientista Paul Stamets notou as semelhanças entre os micélios e a ARPANET (a precursora da internet) e chamou-lhes “a internet natural da Terra”.

Wood wide web

As Plantas Entreajudam-se

Ao longo dos anos, os investigadores têm descoberto que as plantas conseguem transferir carbono, azoto e fósforo, entre elas, através dos micélios.
De acordo com Suzanne Simard, da Universidade de British Columbia, em Vancouver, as árvores de grande porte ajudam as mais novas e pequenas, utilizando a internet de fungos. Sem esta ajuda, a cientista acredita que muitas árvores novas não sobreviveriam. Num estudo, Suzanne Simard descobriu que os rebentos à sombra – que têm mais probabilidade de ter carência de alimentos – recebiam mais carbono das árvores dadoras.
“Estas plantas não são os indivíduos que Darwin idealizou, a competir pela sobrevivência do mais forte”, declarou a investigadora. “De facto, elas estão a interagir entre elas, tentando ajudar-se umas às outras a sobreviver.”
No entanto, ainda é controversa a utilidade destas transferências de nutrientes, uma vez que não se conhece a dimensão em que ocorrem.

As Plantas Comunicam

A há mais: investigadores têm descoberto indícios de que as plantas comunicam através da rede de micélios. De facto, elas libertam sinais químicos para os micélios para avisar as suas vizinhas de perigos.
Um estudo, realizado por Ren Sen Zeng, da Universidade de Agronomia de Guangzhou, na China, sujeitou tomateiros em pares a um fungo prejudicial. Quando, ao fim de 65 horas, a equipa tentou infetar o segundo tomateiro do par, descobriu-se que, as que estavam ligadas pela rede de fungos, tinham muito menos probabilidade de ficar infetadas e tinham níveis significativamente mais baixos de danos.
O mesmo se verificou noutro estudo, desta vez da Universidade de Aberdeen, que descobriu que as favas utilizam um sistema semelhante para se defenderem de afídios esfomeados – o que prova que as micorrizas ajudam as plantas a defender-se.

Fungos na Terra
Foto: Nigel Cattlin / Alamy

O Lado Negro da Wood Wide Web

Mas como a internet humana, a internet de fungos também tem a sua versão de cibercrime. Esta rede de fungos faz com que as plantas nunca estejam verdadeiramente sozinhas e que vizinhos malévolos as possam prejudicar.
Algumas plantas roubam-se umas às outras, usando a internet natural. Plantas, como a orquídea fantasma, não têm clorofila, o que as impede de realizar a fotossíntese, por isso adquirem o carbono de que precisam de árvores próximas, através dos micélios dos fungos a que ambas estão ligadas. Outras orquídeas, que conseguem fazer fotossíntese, “roubam”, mesmo assim, carbono a outras plantas.
Mas o cibercrime das plantas pode ser mais sinistro do que estes roubos.
As plantas têm de competir com as suas vizinhas por recursos como água e luz. No meio dessa batalha, algumas – como as acácias e algumas espécies de eucaliptos – libertam químicos que prejudicam as suas rivais ou que reduzem a disseminação de micróbios à volta das suas raízes – um processo que se chama alelopatia. Supostamente, estas substâncias alelopáticas seriam absorvidas pelo solo ou decompostas por micróbios, limitando a sua expansão. Mas e se estas plantas conseguissem dar a volta a isto, através da internet de fungos? Um estudo realizado por Kathryn Morris verificou que os níveis dos compostos produzidos pelas plantas hostis, neste caso tagetes tenuifolia e nogueiras negras, eram 179% a 278% mais elevados, em solos com a rede de fungos, e que havia uma diminuição de cerca de 40% no peso de legumes plantados nesse solo.

Como resultado destas novas evidências, muitos biólogos têm começado a usar o termo wood wide web para descrever os serviços de comunicação que os fungos fornecem às plantas e a outros organismos.
“Estas redes de fungos tornam a comunicação entre plantas, incluindo as de espécies diferentes, mais rápida e mais eficiente”, diz Kathryn. “Não pensamos nisso porque normalmente só conseguimos ver o que está acima do solo. Mas a maioria das plantas que se podem ver estão ligadas debaixo do solo, não diretamente através das suas raízes, mas através das suas ligações aos micélios.”
A internet de fungos exemplifica uma das grandes lições de ecologia: organismos que parecem estar separados, estão muitas vezes ligados e podem depender uns dos outros.

Fonte: BBC
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