Parte das roupas à venda, até 2009, nas prateleiras de algumas das grandes cadeias de moda espanholas, como a Inditex e o El Corte Inglés, foram fabricadas pela máfia chinesa a partir de instalações clandestinas nos arredores de Barcelona.
O El País teve acesso ao relatório judicial da Operação Wei, que expôs uma teia de subempreiteiros, na qual cerca de meio milhar de chineses, na maioria em situação irregular, eram obrigados a trabalhar em condições de quase escravatura.

A polícia encontrou mais de 400 pessoas nestas pequenas fábricas clandestinas. Trabalhavam de segunda a domingo, sem feriados e durante 15 horas.

Nas épocas de maior trabalho, cosiam até às 3 da manhã, dormiam 4 horas e voltavam para as máquinas. Dormiam em sótãos e comiam esparguete e arroz. Não havia janelas nem condições de higiene. Ganhavam 25€ ao dia, que serviam para pagar a dívida contraída com a organização que os tinha trazido da China.

Nessas fábricas clandestinas eram confecionadas roupas para 363 marcas e retalhistas, entre elas: Desigual, Punt Roma, Kiabi, Festa Moda ou Cortefiel.
As empresas espanholas faziam as encomendas a fornecedores nacionais e os intermediários desviavam a produção para as pequenas fábricas clandestinas.

Um dos casos envolve a Intexetis, que fornece vestuário para os grupos El Corte Inglés e Inditex. Terá contratado uma outra empresa, a Josmigmar, que, por sua vez, terá cedido, "sem autorização", entre 500 e 800 unidades a uma companhia chinesa, a Jiaem Wang. Os fornecedores da Catalunha recorriam com frequência a este tipo de empresas. "Aparentavam estar legais." Tinham licença e pagavam todos os impostos. Os intermediários repartiam, depois, as encomendas pelas várias fábricas, permitindo reduzir substancialmente os custos e embolsando os lucros. As ligações entre várias fábricas, todas em Mataró, na região de Barcelona, o bastião da indústria têxtil catalã, facilitavam a movimentação dos materiais e dos próprios trabalhadores. A situação de clandestinidade destas fábricas ficava "escondida, em parte" por trás destes intermediários.

O esquema foi descoberto em 2009 pela polícia catalã em 72 armazéns. Além das máquinas e das roupas, a polícia encontrou uma "enorme quantidade de etiquetas" de grandes marcas. E não eram simples falsificações - os códigos de barras permitiram seguir o rasto das encomendas e chegar aos clientes finais, "grupos comerciais da indústria têxtil, de notória relevância em mercados nacionais e internacionais". Os investigadores destacam etiquetas de marcas do El Corte Inglés - Easy Wear, Fórmula Joven ou Hipercor - e da Inditex, a holding das conhecidas lojas Zara, Stradivarius, Bershka, Lefties e Pull&Bear.
Dos 77 detidos inicialmente na Operação Wei, só 3 donos de fábricas clandestinas foram condenados, na semana passada, a três anos e meio de prisão pelo crime de exploração laboral. A razão foi a dificuldade em encontrar testemunhas.

Fontes: DN e El País

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