“Custa crer que boa parte dos alimentos que estão na nossa mesa diariamente sejam criados num laboratório e fumigados com químicos altamente tóxicos” – Pablo Piovano


Pablo Piovano, fotógrafo argentino, percorreu 6000 km no litoral e norte do seu país e conheceu pessoalmente as vítimas do que considera tratar-se de “um genocídio silencioso”. Na grande maioria dos casos que documentou em "O Custo Humano dos Agrotóxicos", as vítimas são crianças/jovens cujos pais estiveram em contacto direto com as substâncias tóxicas. O trabalho agrícola é o tipo de trabalho mais comum na região visitada pelo fotógrafo, o que deixa a população numa posição de enorme fragilidade.
“Em algumas povoações, no período de menos de uma década, os casos de cancro infantil triplicaram, houve um aumento de 400% de casos de aborto espontâneo e de malformações em recém-nascidos.” Rede de Médicos de Povos Fumigados da Argentina — organização independente que desenvolve estudos nas zonas onde são mais frequentes as fumigações químicas sobre áreas cultivadas.

O projeto "O Custo Humano dos Agrotóxicos" inclui diversos casos, mas aquele que Piovano considera de maior impacto é o de Fabián Tomàsi.

"Ele fazia carga e descarga de químicos a partir de um avião." "Contactou com todo o tipo de agroquímicos. Ele é o exemplo vivo do impacto dos agrotóxicos na saúde humana. Tem politraumatismos de todo o tipo: não pode levantar uma chávena de café, com as mãos não consegue fazer nada e está fraco como um esqueleto", descreve o fotógrafo. Fabián é conhecido na Argentina por dar voz à luta contra a utilização de agrotóxicos.


Outro caso que considera relevante é o de uma família da província de Misiones. "Nesta família, todos tinham uma afeção resultante do contacto com agrotóxicos." Andrea inalou, aos 8 anos de idade, o pesticida bromometano, o que resultou em 9 dias de internamento nos cuidados intensivos, perda parcial de função motora e falência renal. Três vezes por semana, Andrea faz diálise. “O irmão mais novo, que agora tem 20 anos, é como um bebé. Tem problemas neurológicos graves. O pai tem cancro." A mãe morreu há anos, vítima de um enfarte do miocárdio em sequência da notícia do internamento da filha.

Em 1996, o governo argentino assinou um acordo com a empresa líder mundial no sector da biotecnologia agrícola, a Monsanto, que introduziu no país a comercialização e produção de soja transgénica e que abriu portas ao uso do herbicida glifosato, segundo o autor, "sem qualquer análise científica ou avaliação de danos humanos". Em consequência, em 2012, 21 milhões de hectares eram dedicados ao cultivo de soja transgénica, cobrindo 60% da área cultivável do país. No mesmo ano, "370 milhões de litros de agroquímicos foram aplicados no solo argentino. Não existe qualquer lei na Argentina que regule a utilização de herbicidas, apesar de o glifosato estar proibido em 74 países. Em 2014, os lucros da Monsanto rondaram os 16 mil milhões de dólares".

Fonte: Público – 07/09/15

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