Numa entrevista ao hojemacau, Hugo Cardoso, linguista, docente da Universidade de Macau (UMAC) e investigador dos crioulos de base portuguesa na Ásia defende que ainda há uma certa ideia do ensino do português como missão civilizadora e, em certos contextos, isso está a matar os crioulos na Ásia que “ainda não passaram por uma descolonização ideológica”. O investigador admite que a política linguística pode estar a ser mal dirigida e a ser utilizada como um instrumento imperial.


Numa recente conferência falou das ameaças à continuidade dos crioulos, e que a política de língua portuguesa acabava por ser contraproducente para a sobrevivência desses crioulos de base portuguesa, na Ásia. Quer desenvolver?
Um factor essencial é perceber se os crioulos têm uma estabilidade que lhes permita acrescentar o português sem que isso altere a sua ecologia. Por exemplo, ensinar português num sítio como Cabo Verde onde há uma população imensa de gente que fala crioulo e que tem algum reconhecimento público e está enraizado, não é grave. Não haverá a tendência de abandonar o crioulo a favor do português. Ou seja, neste caso acrescenta-se o português. Agora, em comunidades portuguesas, como Malaca, Diu ou Damão, comunidades pequenas, relativamente abandonadas, em que os crioulos não têm qualquer tipo de reconhecimento oficial, não há ensino, não estão estudadas, comunidades em que há aquela ideia de que o crioulo é um português mal falado, em que há uma certa vergonha, em comunidades com estes factores sociais ensinar o português pode ser muito perigoso. Isto porque a tendência vai ser sempre a de abandonar o crioulo em favor do português, ou mesmo que não se abandone o crioulo tender-se-á a ‘lusitanisar’ o crioulo. Ainda que a política linguística seja feita com muito boa vontade, com a ideia de que se está a dar alguma apoio àquela comunidade, na verdade, pode estar a ajudar à extinção do crioulo. Depende como a comunidade se relaciona com a sua língua e com o português.

Existe uma tendência para pensar a língua, ainda, como instrumento imperial?
Eu acho que sim. Não posso deixar de dizer que estas coisas são feitas com boa intenção mas penso que é mal dirigida e que acaba por ser um instrumento colonial. Tenho ouvido várias vezes por parte de organizações governamentais, mas também não governamentais, que se interessam por estas comunidades crioulas da Ásia este discurso: ‘Portugal abandonou-as, vamos fazer alguma coisa por elas’. Eu acho muito bem mas daí a saltar-se para a ideia de que o apoio de que precisam é do ensino do português, aí é que eu acho que há um problema e uma certa continuidade do discurso colonial e da ideia civilizadora que, no século XVI, levou a coisas menos positivas. Eu gostava que se pensasse sobre isto por parte de quem toma decisões, que pensem se essas comunidades precisam que lhes ensinem o português ou precisam, antes, que nós apoiemos o crioulo, que tentemos dar condições materiais de ensino para que o crioulo não se perca? É uma decisão política!

O crioulo é entendido com uma menorização face à língua padrão?
Os especialistas que trabalham nestas questões só têm uma coisa a dizer: não há nada de intrinsecamente positivo, ou negativo, em qualquer língua. Não há línguas superiores ou inferiores. Os crioulos são línguas perfeitamente autónomas, perfeitamente independentes com a sua própria estrutura e, depois, uma estrutura que revela a sua história. Nesse sentido, são monumentos históricos. Acho que esta é uma boa maneira de pensar os crioulos, como coisas a preservar. Sei que há muita gente que usa o termo crioulo de forma depreciativa mas não há razão para isso. E é por ainda existir essa ideia de que o crioulo é antiquado, ou é errado, que eu penso que, muitas vezes, com boas intenções podemos estar a contribuir para a sua extinção. Há situações em que o crioulo é, perfeitamente, valorizado. Por exemplo: nas Antilhas holandesas em que se fala um crioulo espanhol/português que se chama papiamento. Esta língua acaba de ser tornada oficial. É uma valorização da língua. Obviamente, já houve um processo de descolonização da língua que permite agora valorizá-la e entender a língua como a que identifica aquele povo. Penso que em Cabo Verde, acontece a mesma coisa, mas em comunidades pequenas na Ásia, isso ainda não acontece. Ainda não houve essa descolonização ideológica.

Para os investigadores, esse processo traz dificuldades acrescidas.
Precisamente. Senti isso na pele na comunidade de Diu. É uma comunidade em que se atribui muito prestígio ao português e, pelo menos abertamente, muito pouco prestígio ao crioulo. Eu sendo português tive, de facto, no início muita dificuldade em aceder ao crioulo porque as pessoas que falavam algum português, falavam comigo em português e recusavam-se a falar crioulo. E houve pessoas que, depois de quatro anos de visitas minhas, nunca conseguiram falar crioulo comigo. Não conseguiram ultrapassar essa barreira ideológica. Com outras pessoas isso aconteceu mas exigiu algum esforço e algum tempo. Mas é bom ver que nas famílias, o crioulo é valorizado. É a língua que toda a gente fala. É a língua da comunidade, das pessoas. Há uma relação afectiva muito forte com ela. Quando se entra no campo dos antigos colonizadores, do prestígio, da normalização, aí e que se revelam essas assimetrias.

E como é que se consegue contornar esse sentimento?
Só valorizando o crioulo. Tem de haver, por parte da comunidade, uma valorização muito estável do crioulo para que o português não tenha esse efeito. Ou seja, para que se possa acrescentar o português e tem de haver uma maneira criativa de o fazer.

Trata-se também de um problema político uma vez que serão comunidades com fraca capacidade de impor a valorização da sua língua.
Isso é outra fragilidade. Em muitos casos, uma das motivações de quem fala crioulo para aprender o português é, de facto, inserir-se numa comunidade maior, mais poderosa, uma comunidade lusófona, à escala mundial que lhes dê oportunidades de conseguir emprego, por exemplo, que é uma aspiração perfeitamente legítima. É muito assim que certas línguas desaparecem, rapidamente, porque há outras línguas que permitem uma participação mais activa nas comunidades em que as pessoas se integram. Agora, não há razão para que isso implique o abandono das suas línguas nativas. Qualquer ensino do português nestas comunidades tem de incidir no crioulo, na sua estabilização e na sua valorização. Podemos dar aulas de crioulo, fazer materiais de ensino, e fazer com que aquela comunidade assuma o seu crioulo com orgulho. A partir daí, o português deixará de ser um potencial inimigo.

Isso do português poder funcionar como potencial inimigo também se aplica, em Macau, com o patuá?

Macau é um sítio interessante. O patuá, ou maquista, está moribundo precisamente pelas razões que falei há pouco. O maquista foi sendo comido pelo português porque havia esta noção de que era uma espécie de corruptela. Penso que, nos últimos anos, o paradigma mudou e terá mudado porque as pessoas se aperceberam de que estava a desaparecer. Agora, as razões pelas quais ele desapareceu são precisamente essas. Há pessoas na Universidade que se interessam pelo patuá e que quando sabem de alguém que ainda fala patuá tentam conseguir entrevistá-las, gravá-las, etc. Há uma resistência enorme por parte das pessoas mais velhas que ainda não abandonaram esta ideia de que o patuá só serve para uma função: a função familiar ou do humor e que não serve para mais nada. Ainda há alguma vergonha.

Era a língua das classes mais baixas…
Não, não era. Era a língua dos macaenses em geral, os mais pobres e ricos. Mas era, sobretudo, a língua da casa. Ou seja, não era a língua da educação, não era a língua do governo, não era a língua do progresso, digamos, social. Era a língua das mulheres. Era sempre a língua dos mais velhos, dos avós e, portanto, ficou essa ideia de que, de alguma maneira, era insuficiente, ou de que não era adequada. Que é um problema que acontece com vários comunidades crioulas. Isso aqui ainda se nota por parte das gerações mais antigas. Por parte das gerações mais novas, as tais que já não cresceram com o patuá, ou que cresceram a ouvir talvez as avós e as tias a falar mas que nunca o aprenderam. É que o paradigma mudou e agora há um certo orgulho e há uma tentativa de o revitalizar, de alguma maneira. De facto, essa ligação ao domínio do humor não é necessariamente, má. É óptimo que se faça humor em patuá. Mas se, de facto, a intenção é revitalizar o crioulo terá de se passar desse domínio do humor. Penso que a ideia não é revitalizar o crioulo, é apenas preservá-lo, é tentar manter a sua memória mas não é intenção de ninguém que as crianças voltem a crescer com o patuá como língua materna.

E a patrimonialização pela UNESCO é a estratégia mais eficaz?
Possivelmente, não… ou talvez seja, porque o estatuto de património imaterial tal como está estabelecido exige que a iniciativa parta da comunidade, que haja estruturas para o preservar, etc. Sem isso não poderá haver essa classificação. Nesse sentido é bom, mas de facto para conseguir a classificação tem de fazer esse trabalho de casa, primeiro. Algumas coisas estão feitas. Penso que se poderá fazer mais, de modo criativo – podemos pensar em aulas, podemos pensar em concursos, por exemplo. No fundo, a classificação da UNESCO seria assumir o crioulo como um património de valor que eu acho que é, histórico, sociológico, que é único.

Fonte: hojemacau


Trailer do Documentário "Patuá di Macau, únde ta vai?"

Partilha:

Comentários:

4 comentários. Diz-nos o que pensas

  1. Obrigado por me (per)seguir e já coloquei o blogue na minha lista.
    Posso sugerir-lhe que coloque 5 posts no LinkWithin, porque cabem?
    Desculpe intrometer-me.

    ResponderEliminar
  2. Muito obrigado por o ter adicionado à sua lista de blogs!
    Obrigado pela sugestão! Já uma vez tentei alterar para 5 mas o código não funcionou; tenho que experimentar outra vez.
    Um abraço,
    Mab

    ResponderEliminar
  3. O crioulo e uma lingua linda!
    Isto das "linguas" e como os seres vivos, sao todas importantes.

    ResponderEliminar
  4. Olá Ana,
    Obrigado pelo comentário!
    Os crioulos de base portuguesa são memórias vivas da nossa História portuguesa e deveriam ser preservados. Cada vez que um crioulo se perde, a História desse sítio fica mais pobre...

    ResponderEliminar

Obrigado pelo comentário! Respeite os outros leitores. Comentários ofensivos ou com linguagem imprópria serão eliminados.